En Marche! | Fale connosco: +351 239100351 ou hello(at)ebc.pt | Podcast EBC.pt Entrevista na TSF | Opinião | Objetivo SMART: 100.000 membros até 2020!

Está preocupado(a) com as várias crises? Há soluções!

Escrito originalmente em outubro de 2008 no ex-semanário, O Correio de Pombal:

Relaxe. Por pior que lhe possam parecer desde já as coisas, todos seremos capazes de encontrar soluções. Podem é não ser muito do seu agrado. Deixo desde já um conselho. Prepare-se para mudar a sua forma de pensar. Vá lá, não custa assim tanto…

Passados 4 anos a prestar alguma atenção ao desenvolver das várias crises, vou tentar sintetizar a minha visão sobre a situação do mundo e o que tem isso que ver com a vida do leitor(a).

Começo por lhe dizer que de facto, a crise financeira atual poderá resultar apenas numa recessão económica mundial com alguma gravidade, ou degenerar numa depressão económica com contornos catastróficos. Vale a pena por isso, indagar as causas da atual crise financeira.

 



Vou ignorar as causas mais longíquas e realçar as mais próximas. Podemos afirmar, que o rebentar da bolha imobiliária, traduzida na desvalorização do setor imobiliário nos Estados Unidos da América, foi o detonador que está a abanar o castelo de cartas que é o sistema financeiro global. Porque rebentou a bolha? Por várias razões, mas vou destacar duas delas. Em primeiro lugar, por vivermos num sistema monetário e económico absolutamente piramidal, em que a riqueza produzida no mundo inteiro tende a ser acumulada sobretudo pelos exigentes clientes dos fundos de investimento e instrumentos afins, que se focam exclusivamente na maximização do lucro no mais curto espaço de tempo possível. Em segundo lugar, entre o final dos anos 90 e 2008 o preço médio do petróleo subiu cerca de 5x, o que mais visivelmente se sente no preço das nossas deslocações, e da alimentação. Ou seja, o poder de compra das classes médias do mundo ocidental está a decair há anos, dificultando ou impossibilitando o pagamento das dívidas das coisas que adquirimos nos últimos tempos, sem as quais, nos disseram, não seríamos felizes. Nós acreditámos. Em suma, as hipotecas lixo, que originaram os produtos financeiros derivados, passaram a lixo, nomeadamente, devido ao insustentável sistema bancário, monetário, económico e social americano, e à crise energética, que passa por aqui relativamente despercebida, mas que é essencial.

Voltando às consequências da crise financeira , podemos dizer que, se as coisas correrem bem, no curto prazo, “apenas” teremos um razoável agravamento dos juros das nossas dívidas e tornar-se-á muito mais díficil aceder a novos créditos. Na economia, haverá uma recessão económica profunda, com aumento do desemprego e demais consequências sociais, nomeadamente o injustificado sentimento de culpa e vergonha dos nossos concidadãos. Se as coisas correrem mal, o crédito pode tornar-se quase totalmente inacessível, com as implicações no investimento e no consumo, que se traduzirão numa fortíssima recessão ou até depressão económica. Neste caso o desemprego atingirá valores elevadíssimos, como resultado dum aumento substancial de falências em todos os sectores económicos. Se as coisas correrem muito mal, teremos um colapso financeiro e económico, com os países a declararem Estado de Sítio, entre outras visões inquietantes.

Falemos de energia. Energia representa trabalho; actividade económica. Olhe à sua volta e veja como estamos tão dependentes dos combustíveis fósseis em aspectos tão essencias, como a alimentação, o transporte de pessoas e bens, a electricidade, etc. A nossa civilização está construída em cima da existência de petróleo abundante e barato. E não, não há substituto semelhante. E pior, pelo que já referimos, as energias renováveis que dão uma ajuda na transição, exigem investimentos megalómanos e o crédito está ficar escasso e caro.

Vários autores que estudam os recursos energéticos têm assinalado várias ideias:

1. O nível de produção de petróleo acessível, está a atingir, já atingiu, ou atingirá brevemente o seu pico;

2. A tendência de médio e longo prazo na procura mundial de petróleo é de subida;

3. A energia necessária para extrair nova energia está a aumentar;

4. A energia disponível dos países exportadores para os importadores está a diminuir;

5. O preço do petróleo, por tudo isto e mais ainda, a médio e longo prazo, é claramente de subida.

Muitos autores colocam o intervalo de 2010 a 2020, como o intervalo de tempo a partir do qual os preços do petróleo alterarão para sempre a civilização como a conhecemos. Repare que o problema não é ele estar a acabar. É o preço.

Se estas informações estiverem correctas, o nosso dever para com as gerações futuras é claro. Preparar um mundo diferente do actual. Repito, preparar um mundo diferente, com outro modelo económico e social, instituições renovadas, e sobretudo, novas ideias e novas pessoas a liderar a mudança.

Já noutros escritos anteriores caracterizei esta mudança como um mega desafio psicossocial. É o de facto. Fomos educados e influenciados para o egoísmo. Venderam-nos a banha da cobra dum progresso insustentável. A visão que temos do mundo dá-nos uma certa segurança, e por isso, resistimos a mudar. Tornámo-nos demasiado cínicos para, pensamos nós, nos adaptarmos ao mundo da selva. É-nos díficil pensar de formas radicalmente novas. Teremos que o fazer e dificilmente os políticos deste país, dirão às pessoas o que elas não querem ouvir, a saber, que os nossos estilos de vida vão mudar profundamente.

É possível criar comunidades fortes e economias locais interdependentes, com menos coisas, mas com melhores pessoas.

Neste momento, em todo o mundo, nomeadamente influenciadas pela Permacultura e pelo Modelo de Transição, há milhares de pessoas a criar Projetos e Empresas de Transição, que criam rendimento a cuidar da Terra e das pessoas. 

A nossa espécie, homo sapiens sapiens tem cerca de 100.000 anos. Estamos há alguns milhares de anos na Península Ibérica. Até há 1ª metade do século passado, em Portugal, a maioria de nós viveu do que a Terra dá. Possivelmente, ainda na nossa vida, teremos que lá voltar. Por isso relaxe, temos quase 100.000 anos de experiência…

Exibições: 1771

Tags: permacultura, permaculture, portugal, transition, transição

Comentar

Você precisa ser um membro de Rede EBC para adicionar comentários!

Entrar em Rede EBC

Comentário de BEMCOMUM.net em 3 dezembro 2011 às 12:16

Valter, obrigado pelo testemunho. Fomos manobrados e deixámo-nos manobrar. Somos co-responsáveis no problema, mas sobretudo nas soluções. Força!

Comentário de Valter David Batalha Branco em 3 dezembro 2011 às 11:58

Antes de tudo sou pai e quero o melhor para a minha filhota. Vivi grande parte da minha vida na ilusão de que o amanhã seria sempre melhor do que o hoje ou o ontem. Infelizmente é neste momento perfeitamente claro que todos nós fomos manobrados por pessoas que só querem mais dinheiro e poder. Neste momento eu não sei se a Eurozona vai sobreviver, mas na prática é que Portugal vai marcar passo nas próximas décadas porque teremos que pagar dividas a juros absurdos por empréstimos de coisas que a responsabilidade directa é dos vários partidos politicos que passaram  pelo governo nas últimas décadas.

 

Se há 20 anos o consumismo era algo ainda muito ténue, em pouco tempo tornou-se num objectivo de vida para grande parte da população. Há que voltar a termos uma sociedade responsável, há que voltar a um estilo de vida mais próximo da terra, há que voltar a um ritmo de vida adequado ao nosso organismo.

 

Por isso o grande objectivo da minha familia (eu, a minha mulher e filhota) é comprar uma casita pequena algures no interior do meu concelho, e passar das palavras às acções.

 

Eu não quero que a minha filha cresça presa dentro de um apartamento, quero que ela brinque na rua, no campo, coma comida que não provoque mil e uma doenças, que a mesma saiba bem e faça bem.

 

Acho que é a única maneira...

Comentário de Nuno World em 29 novembro 2011 às 17:29

Obrigado pela lucidez João. Podes contar comigo nesta luta contra o esquecimento global (Rolão et al. 2008)

Estamos juntos e até breve.

Comentário de Sérgio Pinto em 29 novembro 2011 às 12:18

Acho que para muitos, que já não encontram condições que lhes compensem viver nas cidades, a solução passa por emigar para um país estrangeiro (excepto para a Europa) ou, como diz o slogan "vá para fora cá dentro", aproveitar as imensas oportunidades que o campo actualmente desertificado pode oferecer. 

Há muitos terrenos, casas e até aldeias inteiras abandonadas, em sítios paradisiacos e aqui ao lado. Julgo que não será necessário muito dinheiro para comprar e recuperar muitas destas propriedades que "ninguem quer" há anos, para começar uma nova vida. Mas claro, é preciso coragem para dar o primeiro passo, alguma criatividade e muito trabalho. 

Felizmente há muitos que já deram esse passo e que podem encorajar ou outros com o seu exemplo. E esta plataforma também cumpre essa função.

 

Comentário de Ricardo M. F. da Silva Saraiva em 28 novembro 2011 às 23:59

Eu acho que a solução desta crise provocada (pelos grandes grupos económicos) é só uma: devolver a soberania aos países. No nosso caso em específico, implica sair da malfadada zona-Euro e a sua moeda suicída, e claro, apostar no desenvolvimento do tecido produtivo do país: agricultura, principalmente. Acho ridículo (e não devo ser o único a achar isso) o facto de Portugal importar 70% do que consome à mesa.

 

Eu estou a favor da mudança: chega de lobbies e chega de dinheiro = dívida.

 

Certamente já conhecem, mas nunca é demais recomendar: Zeitgeist 2 : Addendum.

 

 

Permabraço,

Comentário de Isabel Gonçalves em 28 novembro 2011 às 13:34
Olá Xapu. Tens razão quanto ao estado geral das economias. Efectivamente o modelo capitalista de crescimento ilimitado onde impera a ganância e o "chico-espertismo" trouxe-nos até aqui. A solidariedade ainda é vista (cada vez menos, felizmente) não como meritória, mas como algo próprio de quem não tem mais que fazer. Tendo por base principios como os da solidariedade e humanidade (amor ao proximo) o teu modelo pode não ser perfeito, como dizes, mas que se aproxima muito mais da perfeição... lá isso aproxima.
Comentário de Xapu Zetineb em 28 novembro 2011 às 11:43

@Isabel Gonçalves:

Obrigado pelo teu comentário.

 Eu também não sei se a solução de que falo seria a "perfeita", mas seria certamente melhor do que esta em que hoje em dia vivemos - aliás o estado actual da economia prova-o (e nós não estamos a ser informados de uma imensidão de FRAUDES FINANCEIRAS que se preparam para rebentar...)

 Quando eu propuz o sistema de créditos horários, mencionei também que ete sistema vai redefinir o significado da palavra trabalho; entendo que aquilo q que actualmente chamamos trbalho social voluntário, que é feito com grande devoção, passará a ser uma fonte de rendimento para muitos, e como se trata de um CRÉDITO do estado, o estado continua a suportar os que por motivos de saúde não possam "trabalhar"... repara que qualquer um pode fazer "trabalho social" nem que seja estar numa sala a fazer companhia a um idoso sozinho...

Esta é a minha opinião acerca da mudança que poderíamos ver... repara neste pequeno texto:

O sistema em que vivemos (neo-liberal) é ele próprio fomentador de desigualdades sociais na medida em que o poder económico se sobrepõe ao politico acabando por ditar as regras de investimento e de repartição de riqueza criada. Neste sistema a fome não deixa de ser um negócio e assim sendo não existe forma de combate-la. Não deixa de ser um negócio porque ao tornar as pessoas vulneráveis obtém daí dividendos porque aqueles que ainda têm trabalho perguntar-se-ão 2 vezes se valerá a pena por em risco o seu trabalho para lutar pelos seus direitos.

 

Comentário de Álvaro Eduardo Elbling de Campos em 26 novembro 2011 às 20:48

Milhares de comunidades autónomas e solidárias conjugando esforços.  Que maravilha, vamos ensainado, um dia será assim, mas... E os lucros? E a exploração do trabalho alheio? Iam acabar! E o Poder instuído vai deixar? Mais facilmente voltam a abater milhões e milhões de cidadão excedentes, para retomar a exploração... Não será?

NÃO TENHAM MEDO, O UNIVERSO É PERFEITO, POR LINHAS TORTAS ESCREVENDO DIREITO...!

Comentário de Sérgio Pinto em 26 novembro 2011 às 15:14

Gostei muito da sintese do João e concordo com quase tudo.

Acho que o modelo vigente teve inicio sobretudo com a revolução industrial e desde então a sua principal permissa é o crescimento. O crescimento desenfreado da riqueza humana, mas à custa dos recursos do planeta. O problema é que nem o planeta nem os seus recursos crescem, daí este ser um modelo artificial e completamente insustentável. 

O desenvolvimento sustentável define-se precisamente como aquele que satisfaz as necessidades do presente, sem comprometer a satisfação das necessidades das gerações futuras. A actual crise económica, foi motivada precisamente por uma crise de confiança: de repente "alguém" se apercebeu que muito do actual crescimento é feito à custa de hipotecarmos o nosso futuro, e começou a duvidar da nossa capacidade de continuar a crescer o suficiente para conseguir pagar mais tarde a dívida contraída.

 

Comentário de Quinta do Alcanar em 26 novembro 2011 às 1:05

Há muitas mais formas de superar a crise:

 - Se formos protecionistas e pusermos todos da nossa parte em fazer mais um esforço, mesmo que mais caro e consumirmos produto nacional, como os espanhois e outros, sendo mais nacionalistas.

 - Se recorrermos a energias alternativas, evitando ao maximo o consumo de petroleo, gaz natural e demais energias importadas.

 - Se apelarmos aos nossos governantes que:

 Equilibrem a balança de transações, limitando as importações a igual volume de exportações.

Verifiquem os grandes erros economicos pela base, como o caso chinês, que nos colonzaram,entrando em todos os paises do mundo, com uma concorrencia desleal, em que nos impingem produtos de baixa qualidade com preços muito aliciantes, arruinando a produção nacional, que nos levam divisas, e logo com essas mesmas divisas compram divida publica, subjugando os diversos paises às suas imposições e exigências, como a isenção de impostos por periodos de 5 anos, sendo estes beneficios algo que nos faz sentir estrangeiros na nossa terra.

Caros amigos e politicos comecemos a contribuir com um grão de areia para o nosso bem estar e para regular a crise....

 

 

BEMCOMUM.net Conferences

The NOVA.policies Conference. Registrations.

Economia de Transição

Somos uma Rede Social, com mais de 6.000 membros, especializada na facilitação de vida a Empreendedores de Transição para as Sustentabilidades.

Impulsionamos a Permacultura como filosofia e método de design em Portugal desde janeiro de 2009.

Fomos pioneiros na adaptação do Modelo de Transição à cultura e economia portuguesas!

© 2018   Criado por BEMCOMUM.net.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Política de privacidade  |  Termos de serviço