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A dimensão do sonho para um futuro em trânsito

Este texto foi originalmente escrito por Denis Kern Hickel no Sábado, 15 de Outubro de 2011 at 01:03

De ontem para hoje três acontecimentos quase simultâneos aparentemente desconectados podem vir a ser o prenúncio de transformações radicais nas nossas vidas: Ontem o Primeiro-ministro Português anunciou as medidas de austeridades negociadas com o fundo Monetário Internacional e bradou que “vivemos um momento de emergência nacional”. Ao mesmo tempo nos EUA o Presidente Barack Obama, de forma desconcertada, se pronunciava sobre o número cada vez maior de manifestantes pacíficos reunidos em Wall Street e em outros pontos do país a protestar contra o sistema financeiro – estes acontecimentos representam o que chamarei de a dimensão da casa que cai e a dimensão da realidade objectiva. Ainda no mesmo dia, um texto intitulado Modelo Portugal – ou: Esperança no Alentejo – passou a circular em determinadas redes sociais. A este acontecimento vou chamar de a dimensão do sonho.

A casa caiu, é o reconhecimento de que batemos no fundo e que o que foi feito até aqui foi equivocado e é de responsabilidade de todos, assim como o futuro será. Mas o que afinal terá nos conduzido até aqui? O que nos conduziu até este ponto e por este caminho foi uma visão antropocêntrica, que em diferentes níveis, cada um de nós cultiva e vive. Esta visão põe-nos diante de um paradigma: pois ancoramos o nosso ideal de vida em um modelo de desenvolvimento material sem fim em um planeta com recursos finitos enquanto nos separamos das dinâmicas naturais que originam e sustentam toda a vida.

No entanto, os progressivos avanços científicos gradualmente passaram a deixar de lado a ideia de que a realidade é objectiva e separada daquele que a observa. Pelo contrário, cada vez mais, emerge a ideia de que nós pertencemos a um determinado meio/sistema físico, onde estamos sujeitos a constantes pressões externas e a respondermos a estas a todo instante de acordo com a nossa estrutura (biofísica, mental/psicológica, sensorial). E de forma sucinta diremos que somos parte de um todo sempre em movimento e em constante interacção, afectados e afectando com resultados apenas parcialmente perceptíveis e predizíveis. Tal ideia coloca-nos portanto, numa posição muito mais vulnerável junto ao universo.

Neste momento da nossa existência é justamente esse conhecimento adquirido e a nossa capacidade de criar imagens mentais, projectar o futuro para, no nosso fazer e viver juntos, materializá-lo. Isso nos permite dizer que [1] vivemos um sonho e que [2] fazemos o que quisermos desse sonho, ou seja, somos totalmente responsáveis por todas as consequências daquilo que sonhamos e realizamos, bem como cada pequeno ato de corpo, fala e mente que realizamos a cada momento. Essa é a dimensão do sonho.

Dito isso o que terão a ver estes três eventos uns com os outros? Assim como estamos invariavelmente ligados à teia da vida, os acontecimentos globais também estão. O anúncio do Primeiro-Ministro Português é o reconhecimento oficial de que a casa caiu. Ou seja as consequências das atitudes, das ambições e dos sonhos que sonhamos e vivemos ao materializá-los ao longo do tempo – principalmente dos últimos 30 anos – cá estão em frente de casa. Mas se servir de alento, não estamos sós. Pois não só vivemos uma emergência nacional, como vivemos um momento de emergência global que a cada dia que passa se torna mais urgente, descontrolado e desgovernado. Ao mesmo tempo, o que acontece nos Estados Unidos é similar ao que começou por ocupar o espaço imaterial das redes sociais, passando a materializar-se nas praças públicas, que são o legítimo espaço da democracia, para derrubar Hosni Mubarak, no Egipto que logo foi seguido por outros. Mas o que acontece nos EUA? Recentemente, enquanto o mundo chorava a perda de um dos ícones da nossa cultura material, uma horda de americanos descontentes com o real poder que governa o mundo global: O das instituições financeiras – resolveu ocupar pacificamente a sua Meca.

Eis que nessa onda de acontecimentos o baluarte da democracia global revelou-se uma democracia de fachada, assim como muitas – possivelmente todas – as democracias vigentes no mundo ocidental. Democracia? Pois os vídeos que rapidamente se alastram pela Web dão conta de abuso policial e tácticas de intimidação e provocação para legitimar o uso da força. E a democracia Americana – tão ferozmente defendida acima de tudo e de todos, que legitima sanções, invasões e acções bélicas – mostra-se uma máscara que cai revelando a face de comando e controle. Bastaram algumas vozes questionarem o sistema para fazer balançar uma duvidosa democracia global que é comandada pelos interesses pessoais e corporativos acima dos interesses da grande maioria da população. E ainda não sabemos qual será o resultado, apenas que o movimento cresce e ganha apoio e novos adeptos a cada investida policial.

Em Portugal, assim como no resto do mundo não faltaram advertências vindas de diversos sectores da sociedade e também não faltaram inúmeras manifestações públicas que anteviram o que hora se anuncia. Os actuais políticos de plantão (todos eles!) ocupados em conspirações políticas, ajustados por interesses próprios, nas suas corporações e dos amigos mais chegados, ou ainda elaborando o próximo discursos de impacto, no entanto vazio; estavam todos portanto muito ocupados. Noutras dimensões, o mundo confiou em Obama, assim como pediu para a Presidente Brasileira para parar Belo Monte, enquanto Zé Cláudio, que lutava pela floresta Amazónica antevia o seu assassinato e corajosamente dizia isso ao mundo. Mas ninguém ouviu. Estávamos todos muito ocupados. Os políticos em decidir seus esquemas e a jogar nas mesas dos restaurantes finos de Lisboa, e outras capitais, os destinos e a soberania do país. Nós estávamos ocupados demais com as nossas 8, 10, ou 12 horas de trabalhos diários, 2 a 3 horas perdidas no tráfego, ou nos transportes públicos para garantir o nosso conforto, a escola dos filhos – pois alguém tem que tomar conta deles – a prestação da casa, do carro novo, do plasma, do cable TV do novo iPhone entre outros gadjets, pagar o combustível, a factura da electricidade e do gás, a roupa da nova estação e o supermercado que ficará cada vez mais caro. E tudo em vão, pois este ano não teremos o subsídio de natal, nem de férias.

Ainda assim e apesar de tudo isso, não nos esqueçamos que a vida é um sonho que nós materializamos. A manutenção dessa ideia, e talvez esse seja o mais importante conhecimento humano, dá-nos a flexibilidade e a possibilidade de sonhar de forma consciente. Se o que fizemos até agora esta a doer pois foi o produto de um sonho inconsciente e grande demais em que perdemos a dimensão das nossas possibilidades e do seu significado; o que faremos daqui para a frente pode ser a desconstrução disso tudo. Ou seria mais apropriado ao nosso tempo dizer shut down e seguir para um restart? Pois assim seja. O Modelo Portugal – ou: Esperança no Alentejo representa essa dimensão: Inspirada pelo manifesto Tamera – uma comunidade sustentável situada no litoral alentejano que tem relevância internacional graças ao trabalho pioneiro de seus integrantes na luta pela recuperação de um ambiente outrora degradado, novas formas de coexistência, difusão da permacultura, energias alternativas entre outros. O manifesto e o texto em questão são uma fonte de inspiração para sonhar uma forma de vida mais simples, com mais significado e coerente com a nossa actual situação no mundo. Nesse sonho celebra-se a vida e o principal artigo de exportação é o conhecimento:

"Nessa noite, um «núcleo duro» da geração de protesto já não se separou mais. Estavam inebriados com um conhecimento: Faziam parte de uma nova geração – que se estendia a nível mundial. Pertenciam a um movimento global. É evidente que Portugal não precisa da protecção europeia, é evidente que tem a força para se salvar economicamente. Mas já nem se trata apenas disso, trata-se de algo muito maior, de um mundo novo, de uma era nova. Iremos criar algo completamente novo a nível global. Deixemos aqueles lá de cima tomar as decisões. Há muito tempo que nós já estamos a dançar um ritmo mais elevado. Descobrimos outras ideias, outra ambição a seguir." – Extraído de O Modelo Portugal – ou: Esperança no Alentejo

Os acontecimentos actuais e o texto também trazem uma dimensão até então largamente desconsiderada pela grande maioria: [1] A das gerações que se amontoam no mercado de trabalho e que se excluem umas as outras e não vêem no futuro do sistema vigente algo alternativo à competição e insegurança. [2] A dimensão dos indivíduos e colectivos que gradualmente vêem explorando e realizando novas formas de vida radicalmente diferentes, quer com outras relações de trabalho e com o ambiente, quer na forma de comunidades sustentáveis e/ou iniciativas similares. [3] E ainda a dimensão de um grupo de pessoas que tem efectivamente sonhado e agido desde o questionamento profundo de padrões e valores vigentes.

O manifesto Tamera – que faz todo o sentido no contexto Português e também no contexto global – é mais uma entre tantas iniciativas bem sucedidas, como The Findhorn Foundation, IPEC-Brasil, Schumacher College, Sieben Linden, Ithaca, The Transition Network; que são alguns dos exemplos que poderíamos citar e que proliferam em todos os cantos do mundo. Com diferentes características, situações e localizações são prova viva de que o reconhecimento da diversidade e da dimensão local, das relações humanas saudáveis, mais justas e ecológicas são plenamente possíveis. Actuando nas franjas do sistema vigente, juntas, todas perfazem hoje uma rede de troca de experiências, informação e conhecimento global sobre a diversidade cultural e experiências locais.

É justamente no contexto particular de uma determinada comunidade – de qualquer natureza – que o conhecimento é gerado, negociado, articulado e partilhado de acordo com as condições, situações e relações particulares. A emergência e a negociação de conflitos e o suprimento das necessidades colectivas são resolvidas num regime de co-responsabilização privilegiando formas pacíficas de co-existência. Gradualmente estas iniciativas estão contaminando outras instâncias e inspirando novos sonhos. As gerações que lideraram a ocupação da Praça Tahrir; ocupam Wall Street e amanhã ocuparão Lisboa, tem em comum a busca pela mudança de um paradigma. E muitas delas já vivem um novo paradigma: o da simplicidade, da resiliência e da celebração da vida.

Entender o contexto dos movimentos ecologicamente sustentáveis – e que tem raízes ainda no século passado, seus valores e dimensões e os seus laços, são essenciais nos tempos que se avizinham. A compreensão dessas dimensões aqui expostas poderá provocar uma maior revisão do nosso envolvimento com o conhecimento, subjectividade, política, ética, ciências, cidadania que são tão diferentes de região para região, de contexto para contexto e que no entanto tem sido deliberadamente excluídos em nome da expansão global e dos interesses corporativos. É necessário portanto repensar os nossos valores, escolhas e ambições individuais. Ao mesmo tempo ter em conta e praticar a atenção plena ao impacto planetário das mesmas e estar aberto ao imprevisto. A liberdade começa na escolha consciente e no balanço para decidir o quanto eu me dou para o colectivo sem deixar de ser eu e, ao mesmo tempo, quanto sou eu sem deixar de ser colectivo. Temos que abandonar a visão geral de escassez que se traduz em comer, para não ser comido e trocar a visão de abundância como o excesso da busca material, sob o risco de explodir por incapacidade de digerir para passar a entender a abundância como oportunidade de partilhar. A mudança não vem de fora, nem de cima, mas é activada de dentro para fora e de forma horizontal. Assim como cultivar as nossas relações e o chão que pisamos pois são a base para a transformação.

O que estamos propondo não é fácil, pois exige de cada um de nós que se responsabilize por fazer a sua parte. Exercite o seu direito de sonho e construa um futuro melhor. Olhe nos olhos, olhe para Portugal; olhe para ao Brasil, olhe para América, para e Europa e vejam-se reflectidos no mundo.

Saudações,

Denis Hickel - Quinta do Alecrim, Torres Novas

Referências

  1. Global Ecovillage: http://gen.ecovillage.org/
  2. http://aeiou.expresso.pt/okupas-de-wall-street-tentam-evitar-expuls...
  3. http://aeiou.expresso.pt/
  4. http://aeiou.expresso.pt/medidas-nao-serao-de-carater-temporario-di...
  5. http://aeiou.expresso.pt/veja-os-rendimentos-de-15-politicos-portug...
  6. http://aeiou.expresso.pt/o-que-vamos-perder-em-2012-e-2013-fotogale...
  7. http://www.publico.pt/Mundo/manifestantes-antiwall-street-continuam...
  8. http://p3.publico.pt/actualidade/sociedade/1068/manifestacao-que-e-...
  9. http://www.tamera.org/index.html
  10. Modelo Portugal – ou: Esperança no Alentejo – http://www.scribd.com/doc/68626828/Modelo-Portugal-Short-Version
  11. http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_i...
  12. http://altamiroborges.blogspot.com/2011/10/o-significado-do-ocupar-...

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Comentário de Maurício d'O FOJO em 7 novembro 2011 às 17:42
Obrigado Denis pela lúcida abordagem! Abraço!
Comentário de zuzuferreira_ em 25 outubro 2011 às 1:17
Maravilhoso texto. É sempre muito bom ler artigos como esses que nos explica e nos dá o sentido amplo do que está acontecendo no mundo. movimentos e ações, individuais e coletivas se imbricam em algo verdadeiramente muito maior: a mudança para um novo paradigma. Estou feliz em saber que as teorias da Especialização que fiz, já se constitui em efetivas mudanças em várias partes do Globo...Que estes movimentos e Projetos se ampliem. A partir de hoje estaremos divulgando mais e mais no Brasil este modelo que representa a mudança necessária para o mundo. Sucesso para você...Sucesso para tod@s!
Comentário de Sérgio Pinto em 24 outubro 2011 às 10:15

Obrigado por partilhares a tua analise tão lúcida e esclarecedora.

Nunca me senti totalmente confortável neste mundo, pois muitas coisas nunca fizeram sentido para mim. Também sonho com uma transição para um mundo melhor com uma maioria de pessoas que pensam e agem como tu, como nós. E cada vez mais essa mudança é uma obrigação para todos e não apenas uma opção de alguns!   

Comentário de fatima colaço em 22 outubro 2011 às 2:47

c#Cultivar as nossas relações e o chão que pisamos pois são a base para a transformação.#

Bem hajas por esta análise tão esclarecedora e estimulante, Denis! Ganha a transformação, ganharemos competências para a transição - que mais não é que o exercício do sonho na construção do futuro (que todos queremos melhor):)

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